quarta-feira, 29 de julho de 2015


Dois horizontes fecham nossa vida:  
 Um horizonte, — a saudade  Do que não há de voltar; 
 Outro horizonte, — a esperança  Dos tempos que hão de chegar; 
 No presente, — sempre escuro,—  Vive a alma ambiciosa 
 Na ilusão voluptuosa  Do passado e do futuro.
   Os doces brincos da infância  Sob as asas maternais,  O vôo das andorinhas,  
A onda viva e os rosais;  O gozo do amor, sonhado  Num olhar profundo e ardente,  
Tal é na hora presente  O horizonte do passado. 
  Ou ambição de grandeza  Que no espírito calou, 
 Desejo de amor sincero  Que o coração não gozou;  Ou um viver calmo e puro  À alma convalescente, 
 Tal é na hora presente  O horizonte do futuro.   No breve correr dos dias  Sob o azul do céu, — tais são  Limites no mar da vida:
  Saudade ou aspiração;  Ao nosso espírito ardente,  Na avidez do bem sonhado,  Nunca o presente é passado,  Nunca o futuro é presente.
   Que cismas, homem? – Perdido  No mar das recordações,  Escuto um eco sentido  Das passadas ilusões.  Que buscas, homem? – Procuro, 
 Através da imensidade,  Ler a doce realidade  Das ilusões do futuro.   Dois horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis

Um comentário:

emanuel moura disse...

Um passado presente ,tão doce e terno assim é a vida cheia de saudades ,mas sempre cheia de esperança ,tudo em aberto numa vida quando num coração emana tamanha beleza ,muitos beijinhos