segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
Clarice Lispector

quinta-feira, 30 de outubro de 2014


Nós seguimos as estrelas
Porque elas nos pertencem.
Mas onde iremos com as estrelas?
Num caminho de sonhos e impossibilidades.
Mas mesmo nas impossibilidades
Ainda podemos sonhar.
Se é amor o que nos machuca,

Que pelo menos ele seja sublime.
Que seja amor ou paixão,
Que seja verdadeiro.
Que ele queime 
Tanto que queimam nossas almas, 
Tanto que não sabemos
O que nos reservam as estrelas.

Mas, se eu pergunto às estrelas,
De que será feito o amanhã,
Elas não respondem nada, 
Elas não sabem nada,
Elas só sabem brilhar,
Elas só sabem nos iluminar.
Porque nós também não sabemos
De que o amanhã será feito.
Talvez a gente se acorde...

Letícia Thompson
evanir_garcia@hotmail.com